terça-feira, 29 de março de 2011
segunda-feira, 28 de março de 2011
Entre quatro paredes (cap4- O rio)
Naquele momento não me apetecia de todo, lembrar-me da noite maravilhosa que tinha passado. Aqueles minutos foram importantíssimos. Mas no decorrer da noite fez-me pensar, como se um sonho pudesse ser realidade. Sim, é absurdo ele ser um psicopata bem como um serial killer, mas há algo naquele sonho que me está a fazer reflectir imenso.
Mas o que diria aquele bilhete? Bom, não aguentei mais. Tive que agarrar no papel e ler.
Liga-me por favor … ,Gaspar.
Percorri o quarto com um olhar e lá estava ele. O telemóvel estava pousado em cima da cómoda, junto do mini espelho. Hesitei. Durante esses segundos a minha imagem foi invadida pelo olhar inocente e pelos lábios carnudos. Tive medo, tive medo que aquele sentimento estranho voltasse a invadir-me e que não soubesse como soltar-me dele. Parecia que me sufocavam e que não conseguia falar. As palavras saiam sempre umas em cima das outras e as minhas mãos, tremiam, tal e qual o coração.
Mesmo sabendo qual seria a minha reacção, preferi arriscar. Ouvir a voz dele valia a pena.
-Rita? És tu?
-Sou, só li agora o bilhete. Porque é que querias que te ligasse?
-Queria ter a certeza de que a noite de ontem não foi um sonho.
-Parece que não.
-Ainda bem que não foi! Ficas cá até quando?
-Domingo
-Podemos voltar a encontrarmo-nos hoje?
-Para?
-Falarmos, gostei imenso de falar contigo.
-Como queiras.
-No mesmo sítio, à mesma hora.
- Ok, mas levo a minha prima e a minha irmã, se não te importares.
-Importar…
-Têm mesmo de ir se não os meus tios, provavelmente não me deixam ir.
-Calma, não disse que não queria. Por mim tudo bem, até logo.
-Até logo Gaspar.
A voz dele parecia uma melodia perfeita, como aquelas que por mais vezes que sejam ouvidas, não cansam. Melodia lenta e suave que era capaz de ocupar a minha mente, horas a fio. Tropecei sobre as malas e caí na cama. Fiquei lá, cerca de dois minutos a pensar na melhor maneira de explicar esta situação toda à Marta. O mais certo seria ela dizer-me que não queria vir. Mas surpreendeu-me.
-Marta? Tenho de te pedir um favor…
-Gaspar?
-Quem?
-Gaspar, ele ligou-me a contar tudo priminha. É dos meus melhores amigos e não aguenta esconder-me o que quer que seja. Mal estiveram juntos e tu adormeceste, ligou-me completamente eufórico.
- A sério? Eu também só te queria pedir que viesses comigo hoje…
-Também já me disse. Não te preocupes.
-Mas..
-Mas o quê Rita? Ele é das pessoas mais extraordinárias que conheço. Não, não te vais magoar.
-Ninguém disse que me queria envolver…
-Não? Pelo que ele me disse…
-O que é que ele te disse?
-Lamechices…
-Do tipo?
-O olhar, hum… tu sabes
- O olhar?
- O olhar dela é tão intenso, nunca vi nada assim. Foi isto.
-Ele disse-te isto? Não entendo porquê…
-Já viste bem os teus olhos? Ah e só digo que se vão envolver porque, ele não diz isto sobre qualquer uma. Conheço-o bem.
Não tive coragem de dizer mais nada, baixei o olhar e senti os meus olhos a cintilar. Aquele rapaz tinha mesmo algo especial.
Durante a tarde eu, a Carol e a Marta fomos ao rio. Estávamos fartas de estar em casa e não hesitámos.
domingo, 27 de março de 2011
Entre quatro paredes (cap3- O sonho)
-É sim. E tu, como é que te chamas mesmo?
- Rita.
- Hum….
Ele sentou-se a meu lado e ficamos ali os dois, a observar as constelações e a ouvir o cântico das corujas. Conseguia ouvir a música no quarto da Marta e os meus tios a mandar diminuir o som da aparelhagem, quando, o Gaspar me toca no rosto e o move na sua direcção. Não sabia o que fazer e ficamos assim, durante segundos, olhos nos olhos. E na verdade não me importei nada de ficar assim, sobre aquela paisagem.
- Rita? A tua irmã está a chamar-te. - interrompeu o tio António.
- Já vou, já vou. – disse eu ainda olhando Gaspar nos olhos.
O Gaspar não resistiu e soltou uma gargalhada. Talvez ele se risse pelo facto de termos parado no tempo, como se estivéssemos sós. Ou poderia também ter-se rido por pensar que tenho cara de palhaço? Não sei o que pensar, sinceramente.
- Bem – disse levantando-me – tenho de ir – e viro as costas, preparando-me para ir para casa.
Ele agarra-me pelo braço e diz:
- Espera – tirou um papel do bolço e apontou lá, alguma coisa – leva-o e depois diz-me alguma coisa, por favor.
Peguei no papel e sorri, como forma de resposta. É inacreditável, mas ficava sem jeito quando estava ao lado dele. Há algo nele que não bate certo. Mas e os olhos dele? Aquele verde tão vivo, são lindos.
Caminhei em direcção à entrada e quando cheguei, hesitei. Coloquei levemente as mãos sobre o puxador e entrei. Lá dentro, estavam os quatro no sofá, a ver televisão. Sentei-me ao lado da Carolina. Os meus tios, em simultâneo sorriram e a minha prima, não se moveu um centímetro que seja. Talvez estivesse tão concentrada que não reparasse ou talvez mesmo não quisesse olhar-me. A Carolina deitou a sua cabeça nas minhas pernas e decidi, também, ver televisão.
Onde é que eu estou? Carolina? Carolina? Irmããããã!
As luzes da sala estavam completamente apagadas e a única coisa que via, era a luz que atravessava a clarabóia. A porta estava trancada e a única coisa que conseguia ouvir era o choro constante da minha irmã. Onde é que ela está? Quem está a fazer-lhe mal?
Balbuciei e quase parti a porta até que, oiço alguém a colocar as chaves dentro da porta. Afastei-me e apercebi-me que para lá da porta não havia ninguém. Carolina? Lá estava ela, sobre o berço.
Senti um toque sobre o ombro e ao reagir ao impacto, vejo o Gaspar. Ele estava com uma arma na mão e a única reacção que tive foi de segurar na minha irmã e pô-la atrás de mim.
- Minha princesinha, não quiseste ficar comigo? Não? Sabes o que vai acontecer…
Aquela voz soou-me como se fosse a primeira vez que o estivesse a ouvir. Era tão sarcástica. Ele não pode fazer isto!
- Calma Rita, foi só um pesadelo.
-Carolina? Carolina? – levantei-me e apercebi-me que ela estava mesmo ali, diante as minhas pernas, intacta.
Felizmente foi só um pesadelo. O Gaspar, afinal que pessoa é ele?
- Estás muito tensa, bebe este copo de água, meu amor. – dizia a tia Cristina.
Já estava de dia e quase não me conseguia levantar com as dores de costas. Fui até ao quarto e ao tirar as calças, apercebi-me de que algo estava nos bolsos. O bilhete do Gaspar, pois.
Entre quatro paredes (cap2- A noite)
Quando entrámos pela casa, já os pássaros dormiam. O ambiente era inexplicável, o som das corujas, o céu no seu crepúsculo e o que me apetecia era ficar ali, deitada sobre a relva do campo, contemplando a beleza de um ambiente que parecia vazio. Mas eu sabia que estava repleto de uma infinidade de seres. Não estava frio, para uma noite de primavera. Ao contrário das noites passadas, onde parecia não haver ar respirável, dentro daquelas quatro paredes insignificantes.
-Ritinha? – Chamava-me a Marta – Ritinha?
-Desculpa, estava a contemplar este ambiente, já sentia saudades.
Ela recuou, piscando-me o olho, provavelmente para me dizer, com um olhar, que podia ficar mais um pouco.
Mal me sentei, a relva estava húmida, talvez por causa da rega automática. Senti um calafrio que me preencheu a alma inteira.
Aquela sensação foi muito estranha, não sabia o porquê daquilo. Segundos após aquele calafrio avassalador, senti um toque. Marta?
-Nunca te vi por aqui.
Aquela voz pareceu-me estranha e a única reacção que tive foi mesmo levantar-me e afastar-me.
-Q…quem és tu? – disse eu, cheia de medo.
- Gaspar, é um prazer – sorriu.
Voltei a sentar-me, pensando que seria mais um daqueles rapazes que a única coisa que sabe fazer na vida, é engatar raparigas.
- És nova por aqui?
- Vim passar o fim de semana com a minha prima.
-A Marta?
- Como é que sabes? – pela primeira vez olhei-o nos olhos.
É dos rapazes mais lindos que já vi, e os olhos, os olhos são verdes. Não pude deixar de ficar alguns segundos, talvez quase a babar-me, contemplando aquele olhar, tão profundo. Mas, mais uma vez ele interrompeu o meu momento:
-Tudo se sabe por aqui. – sorriu – estou a brincar, sou um grande amigo da Marta.
- A sério? Ela nunca me falou de ti… Gaspar não é?
sábado, 26 de março de 2011
Entre quatro paredes (cap1- a partida)
Esta noite sonhei que pela primeira vez, a minha irmã não chorou durante um dia inteiro. Os meus pais passaram o fim-de-semana fora e eu fiquei a tomar conta dela. Fomos à praia e ao parque e pela primeira vez, pude sentir um sorriso verdadeiro projectado pelo rosto dela. Mas tudo não passou de um sonho e acordei, novamente com os choros dela. Levantei-me e fui acalmá-la. A minha princesinha já tem 5 anos e está cada vez mais linda. Não aguento vê-la assim, sempre a chorar por causa dos meus pais. Estou a precisar de descanso, estou a precisar de passar uns dias fora, para aliviar esta dor que me percorre o peito. Vou ligar à Marta.
-Marta?
- Rita! Como é que estás? Há muito tempo que já não falávamos, como é que vão as coisas por aí?
-Iguais prima. Os meus pais não param de discutir e o que mais me irrita não é eles me abalarem. A carolina está sempre a chorar, tenho medo que isto lhe cause algum trauma.
-Hum, estou a ver… queres vir passar este fim-de-semana aqui à aldeia?
-Por mim vou, só não sei se eles me deixam.
- Eu falo com eles e vais ver que vêm.
Passei o telefone à minha mãe e ela concordou. Acho que a Marta lhe disse que precisava da minha ajuda e pediu para a Carol também ir. Vou já hoje à noite, não os aturo mais.
Preparei a minha mala e a da minha irmã. Por volta das oito e meia, os meus tios deverão estar aqui. Infelizmente, ainda são sete.
O meu pai acabou de chegar, o sossego da tarde vai terminar.
Começou a reclamar com a minha mãe porque o jantar ia ser peixe. Sinceramente. Se fosse comigo, já tinha saído de casa, não sei como a minha mãe aguenta isto tudo. Fez-lhe a vontade, o jantar vai ser picanha. Tal e qual ontem. Tem de ser sempre tudo como o menino quer. Qualquer dia perco a cabeça e saio da casa com a minha irmã. Afinal, já tenho 17, quando fizer 18, isto não continuará assim.
Os meus tios chegaram. O tio António continua o mesmo, pacato e ingénuo e pensa que a minha família é perfeita.
-Ó amor, tens a certeza que não vais ter saudade dos teus paizinhos?
-Tio, sinceramente, acho que mais depressa sentiria saudades da minha escola.
Ele não se atreveu a citar nem mais uma sílaba e apercebeu-se de que o ambiente em casa estava um pouco pesado, para o habitual. Sim, porque o habitual para ele seria pelo menos um sorriso da parte da minha mãe. É claro que sempre foi forçado, mas ele nunca conheceu o verdadeiro.
Já a minha tia, sempre soube o que os meus pais foram. Não se atreve a sorrir para eles. Sabe o sofrimento que causam em mim e na Carolina e não suporta isso. Já me chegou a pedir que fosse viver com ela, mas rejeitei. Amo demasiado a minha mãe para a deixar só. Tenho medo do que o meu pai lhe faça na nossa ausência.
Mal entrou pela porta, a tia Cristina deu-me um abraço e um beijo enorme. É das únicas pessoas que, hoje em dia ainda me dá abraços e beijos com tanto carinho. Tenho pena que ela sofra ao ver-me assim, não merece…
Finalmente chegamos à aldeia, acho que adormeci pelo caminho e a Carol também. O seu ressonar é como o de uma princesa. Ela não merece tudo isto.
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